Forte relatório de empregos aumenta pressão por alta de juros nos EUA
Economia americana criou 162 mil vagas em agosto, quase três vezes mais do que o esperado, enquanto Donald Trump volta a pressionar o Federal Reserve por juros menores
O mercado de trabalho americano surpreendeu positivamente em agosto e voltou a colocar uma alta de juros no radar do Federal Reserve. Os empregadores criaram 162 mil vagas no mês, muito acima das 56 mil esperadas pelos economistas, reforçando a avaliação de que a economia ainda apresenta força suficiente para suportar uma política monetária mais restritiva.
O resultado ocorre poucas semanas antes da próxima reunião do Fed, marcada para os dias 15 e 16 de setembro, e coloca ainda mais peso sobre os dados de inflação que serão divulgados na próxima semana. Para os dirigentes do banco central, a combinação entre emprego e preços será determinante para decidir se os juros devem permanecer no atual intervalo de 3,50% a 3,75% ou voltar a subir.
As apostas do mercado reagiram rapidamente ao relatório. Os contratos futuros de juros passaram a indicar uma probabilidade de aproximadamente 62% de uma alta em setembro, contra cerca de 55% antes da divulgação dos dados.
O avanço do emprego também veio acompanhado de uma maior participação da população no mercado de trabalho. A taxa de participação subiu para 61,6%, com cerca de 300 mil pessoas deixando a inatividade para trabalhar. A taxa de desemprego permaneceu em 4,1%.
O crescimento dos salários, por outro lado, continuou relativamente controlado. Os ganhos por hora avançaram 3,1%, ritmo considerado compatível com uma inflação próxima da meta de 2% do Fed. Esse comportamento pode impedir que o relatório, apesar de forte, seja interpretado isoladamente como motivo suficiente para uma mudança imediata na política monetária.
O cenário coloca o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, diante de uma situação particularmente delicada. De um lado, os dados econômicos dão argumentos para uma política mais restritiva. De outro, o presidente Donald Trump voltou a exigir publicamente que o banco central reduza os juros.
Trump afirmou que taxas elevadas colocam os Estados Unidos em desvantagem e ameaçou restringir relações comerciais com países que mantêm superávits com os americanos caso o Fed não reduza o custo do dinheiro. A pressão ocorre em um momento politicamente sensível, antes das eleições de novembro, nas quais os republicanos tentam preservar sua maioria no Congresso.
A posição do presidente contrasta com a lógica tradicional da política monetária: uma economia mais forte, especialmente quando acompanhada por inflação acima da meta, tende a justificar juros mais altos ou, no mínimo, uma postura menos expansionista.
A inflação, porém, continua sendo o principal ponto de atenção. O índice de preços ao consumidor e o índice de preços ao produtor, que serão divulgados na próxima semana, poderão determinar se o relatório de emprego representa uma mudança relevante para a reunião de setembro ou apenas confirma a força relativa do mercado de trabalho.
Christopher Waller, integrante do Fed, afirmou nesta semana que apoiaria a manutenção dos juros no intervalo atual caso os novos dados de inflação mostrem continuidade na desaceleração das pressões sobre os preços. Na avaliação dele, o relatório de emprego, por si só, teria pouco impacto sobre sua visão para a política monetária.
Analistas, entretanto, passaram a enxergar um cenário mais apertado. Para a Capital Economics, seria difícil encontrar no relatório de agosto elementos que justificassem a manutenção dos juros inalterados. Ainda assim, a decisão dependerá principalmente do comportamento do CPI e do PPI.
A economista-chefe da Nationwide, Kathy Bostjancic, foi além e afirmou que o resultado do mercado de trabalho oferece suporte adicional para novas altas de juros ainda este ano. A instituição passou a projetar dois aumentos de 0,25 ponto percentual até o fim de 2026, levando a taxa básica para uma faixa entre 4% e 4,25%.
O Fed, portanto, chega à reunião de setembro com sinais conflitantes apenas parcialmente. O mercado de trabalho mostrou força, mas os salários continuam comportados; a inflação ainda está acima da meta, mas apresenta sinais recentes de desaceleração; e, enquanto os dados econômicos apontam para uma postura mais dura, a Casa Branca aumenta a pressão por juros menores.
A próxima semana pode ser decisiva. Se os dados de inflação vierem fortes, a alta dos juros ganhará ainda mais força. Se mostrarem nova desaceleração, o Fed poderá encontrar espaço para manter as taxas inalteradas. Até lá, o relatório de empregos mudou o equilíbrio das apostas e devolveu ao mercado a possibilidade de uma nova alta do custo do dinheiro nos Estados Unidos.
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