Bancos de Wall Street rompem aliança na reta final da disputa por capital
JPMorgan e Bank of America pressionam o Fed contra uma mudança que pode favorecer Goldman Sachs e Morgan Stanley, expondo uma rara divisão entre os maiores bancos dos EUA
Durante anos, os maiores bancos de Wall Street atuaram praticamente no mesmo lado para pressionar o Federal Reserve a flexibilizar as exigências de capital. Agora, justamente quando a reforma parece próxima de ser concluída, essa aliança começou a ruir.
No centro da disputa está uma mudança na forma como o Fed calcula a sobretaxa de capital aplicada aos bancos sistemicamente importantes dos Estados Unidos, os chamados GSIBs. A proposta, apresentada em março, pretende tornar o cálculo mais sensível ao risco e reduzir o peso atribuído ao financiamento interbancário de curto prazo, incluindo operações de recompra e papel comercial.
O problema é que a mudança não beneficia todos os bancos da mesma maneira. Para JPMorgan Chase e Bank of America, que possuem uma base maior de depósitos, a alteração pode significar menos alívio de capital do que esperavam. O JPMorgan calculou que deixaria de obter cerca de US$ 13 bilhões em alívio de capital, enquanto o Bank of America perderia aproximadamente US$ 9 bilhões em relação ao que obteria sem o ajuste.
Do outro lado estão Goldman Sachs e Morgan Stanley, mais dependentes do financiamento de curto prazo no mercado atacadista. Segundo as estimativas apresentadas pelo JPMorgan, os dois bancos poderiam receber entre US$ 1 bilhão e US$ 2 bilhões adicionais em alívio de capital.
A diferença ajuda a explicar porque os antigos aliados passaram a pressionar o Fed em direções opostas. JPMorgan e Bank of America argumentam que a nova fórmula pode criar um incentivo perverso: reduzir o capital necessário para atividades de negociação enquanto mantém maior pressão sobre instituições que possuem grandes operações de crédito.
Para o JPMorgan, isso poderia fazer com que os bancos direcionassem mais recursos para negociação de ativos e menos para empréstimos a empresas e consumidores. O argumento também se conecta à justificativa apresentada pelo governo Trump para flexibilizar as regras: estimular o crédito e a economia real.
Goldman Sachs e Morgan Stanley, por sua vez, defendem que a mudança tornaria o cálculo mais coerente com o risco efetivamente assumido pelos bancos. O Morgan Stanley também argumenta que a alteração poderia aumentar a liquidez do mercado de Treasuries, ao reduzir a quantidade de capital necessária para a negociação de títulos do governo americano.
A diferença entre os modelos de negócio ajuda a explicar o conflito. Em 2026, o financiamento de curto prazo no atacado representava cerca de 37% dos passivos do Morgan Stanley e 30% dos do Goldman Sachs. No Bank of America, a proporção era de 24%, enquanto no JPMorgan chegava a 21%.
A disputa acontece enquanto o Fed tenta concluir uma ampla revisão das regras de capital bancário ainda neste ano. Executivos dos bancos têm intensificado as conversas com autoridades da instituição. JPMorgan e Morgan Stanley, por exemplo, participaram de pelo menos quatro reuniões cada com funcionários do Fed desde março para discutir a proposta.
A divisão também cria um problema político para o banco central. Se o Fed mantiver a fórmula proposta, poderá entregar uma vantagem relevante justamente aos bancos que mais dependem do financiamento de mercado. Se alterá-la novamente, poderá frustrar instituições que há anos defendem uma revisão da sobretaxa.
Para Christopher Appel, da Better Markets, o Fed terá de escolher entre os interesses conflitantes dos bancos. A preocupação é ainda maior porque a sobretaxa GSIB é uma das principais salvaguardas que permanecem enquanto outras exigências de capital são reduzidas.
A regra nasceu após a crise financeira de 2007 a 2009 e foi criada para cobrar mais capital das instituições cujo eventual colapso poderia representar uma ameaça ao sistema financeiro.
O que começou como uma batalha conjunta de Wall Street para reduzir uma regra considerada excessivamente rígida se transformou, portanto, em uma disputa pelo quem ganha mais com a reforma. E, à medida que a decisão final se aproxima, os maiores bancos americanos já não estão mais lutando do mesmo lado.
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