Alívio dos Treasuries perde força e ações voltam a cair com dúvidas sobre medidas do Tesouro
Rendimentos dos títulos americanos retomam a alta após breve alívio, enquanto investidores avaliam os riscos fiscais, o petróleo acima de US$ 90 e os efeitos sobre as bolsas globais
O alívio provocado pelas medidas do Tesouro dos Estados Unidos durou pouco. Os títulos do governo americano voltaram a sofrer pressão nesta quinta-feira, elevando novamente os rendimentos e mantendo as ações sob tensão. Os investidores agora questionam se o aumento das recompras de títulos anunciado pelo governo será suficiente para conter uma alta mais persistente dos juros de longo prazo.
O rendimento do Treasury de 30 anos subiu 2,74 pontos-base, para 5,2214%, depois de chegar a 5,1765% durante o pregão. O movimento ocorreu um dia após o Tesouro anunciar que pretende dobrar o volume de algumas operações de recompra de títulos de longo prazo, em uma tentativa de reforçar a liquidez do mercado.
O rendimento do Treasury de 10 anos também avançou 2,33 pontos-base, para 4,6763%, depois de recuar cinco pontos-base na sessão anterior. Como os rendimentos se movem inversamente aos preços dos títulos, a retomada da alta mostra que os investidores continuam exigindo retornos maiores para manter posições em dívida americana de longo prazo.
A medida do Tesouro trouxe algum alívio inicial, mas não resolveu as preocupações estruturais que vêm pressionando o mercado de renda fixa. O aumento da dívida pública americana, combinado com preocupações sobre inflação e juros, continua sendo um dos principais fatores por trás da recente deterioração dos títulos.
Para Lawrence Gillum, estrategista-chefe de renda fixa da LPL Financial, as recompras funcionam mais como um mecanismo temporário de suporte do que como uma solução definitiva. Ainda assim, o programa mostra que o Tesouro está acompanhando de perto o mercado e disposto a agir para evitar uma alta excessivamente rápida dos rendimentos.
A pressão sobre os Treasuries também voltou a repercutir nos mercados de ações. O índice pan-europeu STOXX 600 caiu 0,17%, enquanto os futuros do S&P 500 permaneceram praticamente estáveis. Taxas de juros mais elevadas tendem a reduzir o valor presente dos lucros futuros das empresas e podem aumentar o custo de financiamento, criando um ambiente menos favorável para ativos de risco.
O petróleo acrescentou outra camada de preocupação. O contrato futuro do Brent subiu 2,54%, para US$ 93,95 por barril, impulsionado pela falta de avanços claros em torno do Estreito de Ormuz. A possibilidade de uma interrupção prolongada no fluxo de petróleo mantém o mercado atento ao risco de uma nova pressão inflacionária.
A situação dos estoques americanos também entrou no radar. Os estoques de combustíveis destilados, que incluem diesel e óleo para aquecimento, caíram pela terceira semana consecutiva. Por outro lado, os estoques de petróleo bruto e gasolina aumentaram na semana passada, criando sinais mistos sobre o equilíbrio entre oferta e demanda no mercado americano.
Mesmo diante da pressão dos juros, as empresas de tecnologia continuam encontrando suporte na expectativa de crescimento relacionada à inteligência artificial. Os futuros do Nasdaq 100 subiram 0,11%, enquanto investidores avaliam se os investimentos em IA serão suficientes para sustentar as ações do setor mesmo em um ambiente de juros mais elevados.
A lógica por trás desse movimento é que as grandes empresas de tecnologia dificilmente podem reduzir seus investimentos em inteligência artificial sem correr o risco de perder espaço para concorrentes. Por isso, parte dos investidores considera que o ciclo de investimentos em data centers, chips e infraestrutura de IA pode continuar mesmo diante de condições financeiras mais apertadas.
No mercado de câmbio, o euro avançou 0,16%, para US$ 1,1695, atingindo seu maior nível desde maio. O iene recuou 0,21%, para 158,50 por dólar, enquanto o índice do dólar caiu 0,14%, para 98,70.
A trajetória das moedas também permanece ligada às expectativas para os juros americanos. A ata da última reunião do Federal Reserve, divulgada na quarta-feira, mostrou que as preocupações com a inflação aumentaram. Vários dirigentes demonstraram disposição para elevar os juros, enquanto muitos indicaram que uma alta poderia ser necessária caso a inflação não avance em direção à meta de 2%.
O documento reforçou a incerteza sobre os próximos passos do Fed justamente em um momento em que os mercados tentam avaliar até onde os rendimentos dos Treasuries podem subir sem provocar uma deterioração mais ampla das condições financeiras.
Assim, o movimento desta quinta-feira mostra que o mercado de títulos ainda não encontrou um ponto de equilíbrio. As recompras do Tesouro podem oferecer suporte à liquidez, mas não eliminam as preocupações com inflação, dívida pública e juros de longo prazo. Enquanto esses fatores permanecerem presentes, os rendimentos dos Treasuries continuarão sendo um dos principais indicadores para entender o comportamento das ações, do dólar e dos demais ativos globais.
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