IA impulsiona lucros do S&P 500, mas ganhos com investimentos levantam dúvidas sobre a força dos resultados
Valorização das participações em empresas de inteligência artificial ajudou a elevar o lucro do índice no segundo trimestre
As empresas do S&P 500 estão encerrando uma temporada de resultados excepcional no segundo trimestre, impulsionada principalmente pelo forte desempenho de companhias ligadas à inteligência artificial. O índice caminha para registrar crescimento de 52% nos lucros agregados em relação ao mesmo período do ano passado, com o setor de tecnologia apresentando alta de 74%.
Parte significativa desse avanço, porém, está relacionada à valorização das participações que grandes empresas mantêm em companhias de inteligência artificial. Amazon e Alphabet reconheceram ganhos expressivos com seus investimentos em empresas como a Anthropic, contribuindo diretamente para a expansão dos lucros do índice.
Quando esses efeitos são retirados dos cálculos, o crescimento estimado dos lucros do S&P 500 no segundo trimestre cai para cerca de 33%. Ainda assim, seria o melhor resultado trimestral desde 2021, segundo dados da LSEG. A diferença mostra, no entanto, como os ganhos provenientes da valorização de ativos passaram a ter um peso relevante nos resultados corporativos.
Esse tipo de ganho exige cautela porque os valores registrados podem oscilar rapidamente de acordo com as condições do mercado. Uma empresa pode reconhecer um forte aumento nos lucros quando suas participações se valorizam, mas o movimento pode ser revertido caso essas companhias percam valor posteriormente.
A influência da inteligência artificial sobre os resultados também aparece na composição dos lucros do índice. Estrategistas do Goldman Sachs estimam que as empresas ligadas à infraestrutura de IA respondam por aproximadamente um terço do crescimento do lucro por ação do S&P 500 no segundo trimestre.
O cenário reforça a importância que a inteligência artificial ganhou para o mercado acionário americano. Nos últimos anos, o entusiasmo com a tecnologia ajudou a sustentar altas expressivas nas ações de empresas de chips, computação em nuvem e infraestrutura de data centers. Agora, porém, os investidores começam a observar com mais atenção o tamanho dos investimentos necessários para manter esse crescimento.
A preocupação aumentou diante de estruturas de financiamento cada vez mais complexas entre empresas do setor. Um exemplo envolve a Nvidia, que anunciou nesta semana uma garantia de até US$ 105 bilhões para ajudar a OpenAI a alugar um grande data center em Ohio.
O anúncio inicialmente impulsionou as ações da Nvidia, mas os papéis recuaram no pregão seguinte durante uma forte queda das ações de tecnologia. O movimento mostrou que os investidores estão mais sensíveis ao custo necessário para financiar a expansão da infraestrutura de inteligência artificial, principalmente em um momento de maior pressão sobre o mercado de títulos americanos.
A questão central para o mercado é se os investimentos atuais serão capazes de gerar lucros suficientes no futuro para justificar os recursos empregados hoje. Grandes empresas de tecnologia estão tomando empréstimos, emitindo ações e utilizando recursos próprios para financiar a expansão de data centers e sistemas de IA, o que aumenta as expectativas de crescimento, mas também eleva a necessidade de retorno sobre esse capital.
Os resultados da Amazon e da Alphabet ilustram esse efeito. O lucro líquido da Amazon no segundo trimestre incluiu US$ 53,4 bilhões em outras receitas não operacionais antes dos impostos, principalmente relacionadas aos seus investimentos na Anthropic. Já a Alphabet registrou um ganho não realizado de US$ 77,1 bilhões relacionado a títulos de participação acionária.
Esses ganhos também contribuíram para o crescimento dos lucros do S&P 500 no primeiro trimestre, embora em menor escala. Naquele período, os lucros do índice cresceram 29,4% em relação ao ano anterior quando esses efeitos foram incluídos. Sem eles, o crescimento teria sido de 22,3%.
Apesar da influência das participações em empresas de IA, o crescimento dos lucros não está restrito ao setor de tecnologia. Sete dos 11 principais setores do S&P 500 registraram crescimento de pelo menos dois dígitos no segundo trimestre.
O setor de energia foi um dos maiores destaques, com crescimento dos lucros estimado em aproximadamente 143% no período. Além disso, cerca de 85% das empresas que já divulgaram resultados superaram as expectativas dos analistas, segundo dados da LSEG.
A força dos resultados também levou os analistas a elevar suas projeções para o próximo trimestre. As estimativas apontam agora para um crescimento de 29,2% nos lucros do S&P 500 no terceiro trimestre, acima dos 27,6% projetados no início de julho.
O mercado, portanto, entra na próxima etapa da temporada de resultados com uma combinação de otimismo e cautela. Os números mostram que os lucros corporativos continuam crescendo em ritmo forte, mas uma parcela relevante desse avanço está ligada à valorização de investimentos em empresas de inteligência artificial.
Para os investidores, o próximo desafio será acompanhar se esse crescimento contábil e financeiro conseguirá se transformar em geração efetiva de receita, fluxo de caixa e retorno sobre os enormes investimentos realizados em IA. É essa capacidade de transformar expectativas em resultados concretos que poderá determinar a sustentabilidade do atual ciclo de valorização das empresas ligadas à tecnologia.
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