Waller pede paciência ao Fed e diz que desinflação pode evitar nova alta de juros em setembro
Dirigente do banco central americano afirma que manter os juros em 3,50% a 3,75% é possível se os próximos dados mostrarem avanço da inflação rumo à meta, mas admite defender uma alta caso os preços voltem a acelerar
O Federal Reserve pode manter os juros estáveis em setembro caso os próximos dados confirmem que a inflação americana continua desacelerando. Essa é a avaliação de Christopher Waller, membro do Conselho de Governadores do banco central dos Estados Unidos, que sinalizou nesta quinta-feira uma postura mais paciente para a reunião de política monetária dos dias 15 e 16 de setembro.
Em entrevista ao evento Reuters NEXT Newsmaker, em Washington, Waller afirmou que está disposto a apoiar a manutenção da taxa básica na faixa de 3,50% a 3,75%, onde permanece desde dezembro, caso os dados de inflação de agosto indiquem progresso contínuo em direção à meta de 2% do Fed. "Vou parafrasear John Lennon aqui. Vamos dar uma chance à desinflação", disse.
A mensagem representa uma mudança importante nas expectativas do mercado, que vinha aumentando as apostas em uma elevação de 0,25 ponto percentual neste mês diante da persistência das pressões inflacionárias. Depois das declarações de Waller, as ações americanas avançaram, enquanto os rendimentos dos Treasuries recuaram. Os contratos futuros passaram a indicar maior probabilidade de manutenção dos juros em setembro do que de uma nova alta.
Waller, porém, deixou claro que sua posição depende dos dados. Se a inflação voltar a acelerar, ele afirmou que poderia defender uma política monetária mais restritiva na próxima reunião. "Se a inflação disparar, eu consideraria um aumento da taxa de juros", disse.
O dirigente considera que a atual taxa de juros já exerce algum grau de restrição sobre a economia, mas não de forma intensa. Segundo ele, os juros estão "apenas restringindo ligeiramente a demanda agregada", o que significa que um novo aumento da inflação poderia ser suficiente para justificar uma postura mais dura.
A inflação continua acima do objetivo oficial do Fed, mas Waller avalia que o processo de desaceleração está avançando, ainda que lentamente. Ele afirmou que uma redução da inflação medida pela variação trimestral anualizada do Índice de Preços ao Consumidor seria um sinal importante para sustentar a manutenção dos juros, embora tenha evitado estabelecer um número específico que funcionaria como gatilho para uma mudança de política.
O próximo dado decisivo será justamente o IPC de agosto, que deve ser divulgado pelo Departamento do Trabalho na próxima semana, pouco antes da reunião do Fed. Embora o índice de preços ao consumidor não seja a principal medida de inflação utilizada pelo banco central, Waller afirmou que o resultado deve oferecer uma indicação bastante precisa de onde estará o índice de preços de gastos com consumo pessoal, o PCE, principal referência do Fed.
A cautela de Waller também contrasta com a postura mais agressiva adotada recentemente por parte das autoridades monetárias. Na reunião de 28 e 29 de julho, três dirigentes discordaram da decisão de manter os juros inalterados e defenderam uma alta de 0,25 ponto percentual. Na semana passada, durante o simpósio de Jackson Hole, o presidente do Fed, Kevin Warsh, também sinalizou que o banco central poderia agir para conter a inflação caso as pressões sobre os preços não diminuíssem.
Na quarta-feira, o presidente do Fed de Nova York, John Williams, havia adotado uma posição semelhante à de Waller ao afirmar que os dados recentes de inflação eram encorajadores, mas que ainda seria necessário observar mais informações antes de concluir que a trajetória dos preços está definitivamente sob controle.
Para Waller, a combinação entre uma economia ainda sólida e um mercado de trabalho relativamente estável permite que o Fed concentre sua atenção na inflação. O Departamento do Trabalho divulgará nesta sexta-feira o relatório de emprego de agosto, outro dado relevante para a avaliação da autoridade monetária.
O dirigente também demonstrou confiança de que parte das pressões que contribuíram para a inflação recente pode perder força. Na sua avaliação, o impacto das tarifas de importação já pode estar amplamente incorporado aos preços, enquanto o aumento dos custos de energia provocado pela guerra no Oriente Médio ainda não parece ter se espalhado de forma significativa para outros componentes da inflação.
Mas Waller reconheceu que os riscos continuam presentes. Os preços de energia voltaram a subir e permanecem significativamente acima dos níveis registrados no início do ano, enquanto a expansão dos investimentos relacionados à inteligência artificial pode elevar os preços de determinados bens tecnológicos. Novos aumentos de tarifas também permanecem como uma possibilidade.
O resultado é um Fed que chega à reunião de setembro diante de um dilema cada vez mais claro: agir preventivamente contra uma inflação ainda elevada ou dar mais tempo para que a desaceleração dos preços se confirme. Para Waller, os próximos dados serão determinantes. Se a desinflação continuar, a paciência pode prevalecer. Se os preços voltarem a acelerar, a porta para uma nova alta de juros continuará aberta.
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