A taxa invisível que pode estar por trás da disparada dos juros dos Treasuries
A chamada R-star, referência para o nível de juros considerado neutro para a economia, vem ganhando força como uma possível explicação para a alta dos rendimentos dos títulos americanos
A forte alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano pode estar sendo alimentada por uma variável que poucos investidores acompanham diretamente, mas que ajuda a determinar até onde os juros podem permanecer elevados. Trata-se da chamada R-star, ou taxa de juros neutra, uma estimativa teórica do nível de juros capaz de manter a economia crescendo sem estimular ou frear excessivamente a atividade.
O conceito ganhou espaço nas últimas semanas à medida que o mercado passou a questionar se os juros americanos poderão realmente retornar aos níveis observados antes da pandemia. Para alguns analistas, a resposta pode estar na combinação de investimentos recordes em inteligência artificial, aumento dos gastos públicos e uma demanda crescente por capital, fatores que podem estar elevando estruturalmente o custo do dinheiro.
A estimativa mais recente do Federal Reserve de Nova York coloca a R-star em 1,65% no segundo trimestre de 2026, abaixo dos 1,73% registrados no primeiro trimestre. Apesar da queda marginal no período, a trajetória é de alta desde o início de 2025, quando a estimativa estava em 1,36%.
O número, por si só, não determina onde estarão os juros americanos. O problema é que, se a taxa neutra estiver de fato acima do estimado pelos modelos atuais, o Federal Reserve poderá precisar manter os juros em um patamar mais elevado por mais tempo. Isso ajudaria a explicar por que os rendimentos dos Treasuries continuam pressionados mesmo diante das expectativas de cortes de juros.
"Os prováveis culpados pelo aumento do R-star podem ser o grande investimento na expansão da IA e os níveis mais altos da dívida pública", disse Chip Hughey, diretor administrativo de renda fixa da Truist Wealth. Segundo ele, os dois fatores aumentam a demanda por capital e podem elevar os rendimentos reais.
A dificuldade está justamente em medir essa taxa. A R-star não é observada diretamente na economia. Ela é calculada a partir de modelos econômicos que utilizam variáveis como crescimento, inflação e produtividade, e diferentes metodologias podem produzir resultados diferentes. Por isso, economistas tratam a estimativa com cautela.
Ainda assim, seus efeitos aparecem no mercado. Um R-star mais elevado significa que a taxa de juros considerada compatível com uma economia equilibrada também é maior. Isso pode pressionar os rendimentos dos títulos em diferentes vencimentos, principalmente quando investidores passam a acreditar que o Fed terá menos espaço para reduzir os juros no futuro.
"Um R-star mais alto está elevando as taxas em toda a curva", disse Zachary Griffiths, chefe de estratégia de grau de investimento e macroeconomia da CreditSights. O movimento é particularmente relevante nos títulos de prazo mais longo. O rendimento do Treasury de 10 anos incorpora não apenas as expectativas para os juros futuros, mas também um prêmio exigido pelos investidores para manter títulos de longo prazo. Quando governos e empresas precisam captar volumes cada vez maiores de recursos, essa disputa pelo capital pode aumentar esse prêmio.
É exatamente nesse ponto que a inteligência artificial entra na equação. As grandes empresas de tecnologia estão realizando investimentos bilionários em infraestrutura necessária para sustentar a expansão da IA. Para financiar parte desse esforço, empresas de computação em nuvem e tecnologia têm recorrido cada vez mais ao mercado de dívida. A oferta adicional de títulos privados coloca essas companhias para disputar o mesmo capital que também é demandado pelo governo americano.
O resultado é uma combinação pouco comum: de um lado, o governo dos Estados Unidos continua emitindo grandes volumes de dívida para financiar seus gastos; de outro, algumas das maiores empresas do mundo aumentam simultaneamente seus investimentos e sua necessidade de financiamento.
Essa competição pode manter os juros de longo prazo elevados mesmo que o Federal Reserve decida interromper o ciclo de aperto monetário. "A Fed não pode facilmente reduzir as taxas de juros a zero quando a demanda estrutural por capital permanece tão alta", afirmou Ulrike Hoffmann-Burchardi, diretora de investimentos para as Américas e chefe global de ações do Escritório de Investimentos da UBS.
O cenário também ajuda a explicar por que os rendimentos dos títulos longos podem se comportar de maneira diferente das taxas diretamente controladas pelo Fed. Enquanto o banco central define a taxa básica de curto prazo, os juros dos títulos de vencimentos mais longos são determinados pelo mercado e refletem expectativas sobre crescimento, inflação, oferta de dívida e demanda por capital.
A dívida americana adiciona outra camada de pressão. O estoque da dívida nacional dos Estados Unidos atingiu US$ 40 trilhões, ampliando a quantidade de recursos que o governo precisa captar no mercado. Para os investidores, a questão deixou de ser apenas quando o Federal Reserve começará a cortar os juros. Passou a ser também qual será o nível de juros considerado normal quando a economia estiver novamente em equilíbrio.
Se a R-star estiver subindo de maneira estrutural, o mercado poderá ter de se acostumar com juros mais altos durante um período mais prolongado. Isso teria efeitos sobre hipotecas, crédito corporativo, financiamento público e também sobre as avaliações das ações, especialmente empresas cujos lucros estão concentrados em um futuro distante.
Mas existe uma possibilidade diferente. Parte dos analistas acredita que o aumento da R-star provocado pelos investimentos em inteligência artificial pode ser temporário. Se os ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia reduzirem custos e aumentarem a oferta da economia no longo prazo, a própria IA poderia exercer uma pressão desinflacionária e permitir que a taxa neutra volte a cair.
"No curto prazo, o impacto da IA será um R-star mais alto, antes de potencialmente se inverter para uma taxa de juros nominal mais baixa no longo prazo", disse Griffiths. Essa é uma das principais incertezas para o mercado. Ainda não está claro se o atual aumento dos investimentos representa uma transformação estrutural da economia ou apenas mais um ciclo de expansão que perderá força com o tempo.
A resposta não virá rapidamente. Economistas precisarão acompanhar os efeitos dos investimentos em IA, da política fiscal e da produtividade durante anos antes de determinar se houve uma mudança permanente na taxa neutra da economia americana.
Enquanto isso, os investidores precisam lidar com uma realidade mais imediata: mesmo que o Federal Reserve consiga reduzir a taxa básica, isso não significa necessariamente que os juros dos Treasuries de longo prazo voltarão aos níveis anteriores. O mercado agora tenta descobrir se a economia americana está simplesmente atravessando uma fase de juros elevados ou se o próprio preço do dinheiro mudou de patamar. E, por trás dessa discussão, uma taxa que não pode ser observada diretamente pode estar ajudando a definir o próximo movimento dos mercados.
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