Bolsas globais caminham para maior queda semanal desde julho, enquanto dólar cai
Mercados enfrentam nova pressão com alta dos rendimentos dos Treasuries, petróleo perto das máximas de um mês e dúvidas sobre a capacidade do Tesouro dos EUA de conter a escalada dos juros
As bolsas globais caminhavam nesta sexta-feira para registrar a maior queda semanal desde meados de julho, em meio à persistência das tensões no mercado de títulos e ao impasse diplomático no Oriente Médio. A combinação entre rendimentos elevados dos Treasuries, petróleo mais caro e preocupações fiscais nos Estados Unidos manteve os investidores cautelosos, mesmo com alguma recuperação nas ações europeias e nos futuros de Wall Street.
O alívio provocado pela decisão do Tesouro americano de ampliar as recompras de títulos de longo prazo perdeu força rapidamente. Os rendimentos dos Treasuries de 30 anos voltaram a subir para perto de 5,25%, enquanto os títulos de 10 anos permaneciam próximos de 4,70%. O movimento reacendeu as dúvidas sobre até onde o governo conseguirá conter a pressão sobre os juros, especialmente diante de um déficit fiscal superior a 6% do PIB e de uma dívida pública que acaba de ultrapassar US$ 40 trilhões.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que o governo poderia ampliar ainda mais as recompras de títulos e voltou a mencionar a necessidade de consolidação fiscal. Para os investidores, porém, ainda não está claro se essas medidas serão suficientes para produzir um efeito duradouro. A questão ganhou importância porque juros mais altos aumentam o custo de financiamento das empresas e reduzem o valor presente de seus lucros, pressionando especialmente as ações de tecnologia, que vêm exigindo investimentos elevados para expandir sua infraestrutura de inteligência artificial.
A pressão já aparece nos mercados acionários. O Nikkei recuou 0,3% nesta sexta-feira e acumulava uma queda próxima de 4% na semana, enquanto o STOXX 600 europeu também caminhava para sua pior semana desde o início de julho. O índice global de ações da MSCI seguia na mesma direção. Em Wall Street, entretanto, os futuros do S&P 500 subiam 0,3% e os do Nasdaq avançavam 0,6%, sustentados em parte pela força dos resultados corporativos e pela expectativa em torno da próxima divulgação da Nvidia, considerada um dos principais testes para o ciclo de investimentos em IA.
O petróleo adicionou outra camada de preocupação. O Brent chegou a se aproximar de US$ 95 por barril, atingindo o maior nível em cerca de um mês, antes de devolver parte dos ganhos. Ainda assim, acumulava alta superior a 5% na semana, diante da falta de avanços concretos para uma reabertura completa do Estreito de Ormuz. A possibilidade de uma interrupção prolongada no fluxo de petróleo mantém vivo o risco de uma nova pressão inflacionária justamente em um momento em que os investidores já discutem a trajetória dos juros americanos.
No mercado de câmbio, o dólar seguia próximo das mínimas de três meses e acumulava queda de aproximadamente 1% na semana contra uma cesta de moedas importantes. O euro avançava mais de 1% no período, enquanto o franco suíço registrava uma valorização ainda mais forte diante da busca por ativos considerados mais seguros. O movimento reflete não apenas a perspectiva para os juros americanos, mas também o aumento das preocupações com a trajetória da dívida e do déficit dos Estados Unidos.
O ouro também se beneficiou desse ambiente. O metal subiu 1,6%, para cerca de US$ 4.592 por onça, atingindo seu maior nível em quase três meses. O Bitcoin acompanhou parte desse movimento de diversificação, chegando a registrar alta de quase 6% no dia e acumulando valorização próxima de 20% na semana, o que o colocaria no caminho de seu melhor desempenho semanal em cerca de dois anos e meio.
Enquanto isso, novos dados econômicos da Europa deram algum suporte ao euro. A atividade empresarial da zona do euro avançou no ritmo mais forte do ano, impulsionada principalmente pelo aumento das novas encomendas e pela recuperação das exportações, ao mesmo tempo em que as pressões inflacionárias mostraram sinais de moderação.
No Japão, os dados reforçaram a expectativa de que o Banco do Japão possa elevar os juros em setembro. A inflação ao consumidor acelerou em julho, enquanto uma pesquisa sobre a indústria manufatureira mostrou forte crescimento das novas encomendas. O mercado já precifica um aumento de 0,25 ponto percentual, levando a taxa japonesa para 1,25%, enquanto os investidores acompanham a disposição das autoridades de acelerar o processo de normalização monetária.
O cenário global, portanto, segue marcado por forças conflitantes. De um lado, os resultados corporativos e o entusiasmo com a inteligência artificial ainda oferecem suporte às bolsas. Do outro, a alta dos juros de longo prazo, o avanço do petróleo, as incertezas fiscais dos Estados Unidos e as tensões no Oriente Médio aumentam o risco de uma correção mais ampla nos mercados.
Comentários: