Franco suíço ganha espaço no carry trade após intervenção para sustentar o iene

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Franco suíço ganha espaço no carry trade após intervenção para sustentar o iene

Investidores começam a buscar alternativas ao iene como moeda de financiamento, enquanto o franco suíço, com juros mais baixos e menor volatilidade, surge como uma opção cada vez mais atraente 

Foto: GettyImages

A intervenção conjunta dos Estados Unidos e do Japão para sustentar o iene começa a provocar mudanças no mercado de câmbio. A operação reduziu parte das apostas contra a moeda japonesa e aumentou o receio de que novas intervenções possam ocorrer caso o iene volte a se aproximar de níveis considerados excessivamente fracos. Diante desse cenário, investidores começam a procurar alternativas para financiar operações de carry trade, colocando o franco suíço no centro das atenções.

O carry trade consiste em tomar recursos emprestados em uma moeda com juros baixos e aplicar o dinheiro em ativos que oferecem rendimentos maiores, geralmente em mercados onde as taxas de juros são mais elevadas. Durante anos, o iene japonês foi uma das principais moedas utilizadas para esse tipo de estratégia, justamente por combinar juros baixos e grande liquidez. Agora, porém, o risco de intervenção e a perspectiva de aumento dos juros no Japão tornam o financiamento em ienes menos previsível.

O franco suíço apresenta características semelhantes e, em alguns aspectos, ainda mais favoráveis para esse tipo de operação. As taxas de juros na Suíça estão em 0%, contra 1% no Japão, enquanto a volatilidade do franco costuma ser menor. Para os investidores, isso significa uma moeda de financiamento potencialmente mais estável, especialmente em um momento em que as oscilações do iene aumentaram.

A mudança também pode ajudar a explicar o desempenho recente do franco. A moeda suíça continua cerca de 12% mais forte frente ao euro do que há cinco anos, sustentada pelo superávit em conta corrente, pelas contas públicas sólidas, pela baixa inflação e pela procura internacional por ativos considerados seguros. Essa força, porém, tem prejudicado parte da economia suíça ao encarecer as exportações e reduzir a competitividade das empresas do país.

Por isso, uma eventual desvalorização do franco seria bem recebida pelas autoridades monetárias suíças. O Banco Nacional Suíço (SNB) já sinalizou que está disposto a intervir no mercado cambial caso seja necessário conter uma valorização excessiva da moeda. Uma mudança nas operações de carry trade, portanto, poderia produzir justamente o movimento desejado pelo banco central: mais pressão vendedora sobre o franco e uma moeda suíça mais fraca.

Os preços já mostram sinais dessa mudança. O franco era negociado próximo de 0,9385 por euro, perto da menor cotação em aproximadamente um ano. Desde a máxima de 11 anos registrada em março, a moeda acumulava uma desvalorização de cerca de 4% frente ao euro. Em relação ao dólar, o franco também estava quase 7% abaixo da máxima de 11 anos alcançada em janeiro.

O Rabobank reforçou essa perspectiva ao elevar sua projeção de 9 a 12 meses para o euro frente ao franco suíço de 0,94 para 0,95, indicando que espera uma nova desvalorização da moeda suíça. A avaliação considera que o ambiente atual pode favorecer gradualmente o uso do franco como moeda de financiamento, principalmente se os riscos associados ao iene continuarem aumentando.

O mercado de carry trade vive um momento particularmente favorável devido à baixa volatilidade cambial, mas esse ambiente pode mudar rapidamente quando uma moeda de financiamento começa a apresentar movimentos bruscos. Foi o que ocorreu com o iene após a intervenção das autoridades, que provocou o encerramento de posições vendidas e mostrou aos investidores que apostas contra a moeda podem sofrer perdas repentinas.

O risco de intervenção, no entanto, não é o único fator que está alterando a dinâmica do iene. As expectativas de elevação dos juros pelo Banco do Japão também aumentam o custo de manter posições financiadas na moeda japonesa. Ao mesmo tempo, existe a possibilidade de o gigantesco fundo de pensão do governo japonês redirecionar parte de seus investimentos para ativos domésticos, reduzindo potencialmente a demanda externa por ativos de maior rendimento.

Ainda assim, o iene continua sendo uma das moedas mais importantes do mercado de câmbio e deve permanecer entre as principais opções para operações de carry trade. A questão é que os investidores agora precisam considerar um conjunto maior de riscos antes de apostar contra a moeda, o que abre espaço para uma diversificação das estratégias de financiamento.

É nesse ponto que o franco suíço ganha importância. Com juros ainda mais baixos e menor volatilidade, a moeda oferece uma combinação que pode ser particularmente interessante para investidores que buscam reduzir o risco cambial sem abrir mão do diferencial de juros proporcionado pelo carry trade.

O Bank of America, por exemplo, mantém uma recomendação de venda do franco suíço contra o iene e projeta uma taxa de 190 ienes por franco, contra aproximadamente 196 atualmente. A instituição considera que a estabilização da balança de pagamentos japonesa e a maior atratividade do financiamento em francos podem favorecer essa estratégia.

Interesses opostos entre Japão e Suíça

A possível mudança na preferência dos investidores cria uma situação interessante para os dois países. O Japão quer um iene mais forte, enquanto a Suíça tem interesse em evitar uma valorização excessiva do franco. Isso significa que uma rotação do financiamento do iene para o franco poderia, ao mesmo tempo, pressionar o iene para cima e o franco para baixo, atendendo aos interesses das autoridades monetárias de ambos os países.

No Japão, um iene mais forte ajudaria a reduzir parte da pressão sobre os preços de importados, enquanto no mercado suíço um franco mais fraco poderia melhorar a competitividade das empresas exportadoras. Essa divergência pode contribuir para uma mudança gradual na estrutura do carry trade, especialmente se as expectativas de juros continuarem apontando para caminhos diferentes nos dois países.

O movimento, entretanto, ainda está em estágio inicial. O iene permanece altamente líquido e amplamente utilizado pelos investidores internacionais, enquanto o franco suíço ainda precisa consolidar seu papel como principal alternativa de financiamento.

Para o mercado cambial, a intervenção no iene pode representar mais do que uma mudança pontual na moeda japonesa. Ela pode estar acelerando uma rotação nas estratégias de carry trade, colocando o franco suíço como um dos principais candidatos a ocupar parte do espaço deixado pelo iene. 

 

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Quinta, 20 Agosto 2026

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