Juros pode cair após as eleições? Ações que podem se beneficiar entram no radar
Goldman Sachs vê baixa exposição estrangeira à Bolsa brasileira e aponta setores sensíveis aos juros como forma de capturar uma eventual mudança no cenário doméstico
A trajetória dos juros brasileiros ganhou ainda mais importância para a Bolsa com a aproximação das eleições presidenciais. Em relatório recente, o Goldman Sachs avaliou que investidores estrangeiros ainda têm exposição relativamente baixa às ações brasileiras e que papéis mais sensíveis à queda dos juros podem ser uma das formas de capturar uma eventual mudança na percepção sobre o cenário econômico após o pleito.
A tese parte de um movimento que já vem sendo observado no mercado. Depois de um primeiro semestre marcado por forte entrada de capital estrangeiro, o fluxo perdeu força em agosto e voltou a ficar positivo em setembro. Até 21 de setembro, os investidores estrangeiros haviam colocado R$ 9,6 bilhões na B3, segundo dados citados pela Exame.
A diferença entre os juros brasileiros e americanos também passou a ocupar um papel importante nessa dinâmica. O Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro, enquanto o Federal Reserve elevou os juros dos Estados Unidos para a faixa de 3,75% a 4%. A redução desse diferencial diminui uma das vantagens que atraem capital para ativos brasileiros, mas a renda fixa local ainda oferece uma remuneração elevada em relação aos mercados desenvolvidos.
Para a Bolsa, porém, o cenário pode mudar caso a percepção sobre a trajetória da Selic melhore. Juros menores reduzem o custo de financiamento das empresas, aumentam o valor presente dos lucros futuros e diminuem a vantagem relativa da renda fixa. Por isso, setores domésticos que dependem mais do crédito e da atividade econômica costumam reagir com maior intensidade às mudanças na curva de juros.
Entre os segmentos que entram nessa discussão estão bancos, construção civil, varejo e empresas de consumo, embora o impacto não seja uniforme entre as companhias. O efeito depende do nível de endividamento, da estrutura de receitas, da qualidade do balanço e de quanto da eventual queda dos juros já está refletida nos preços das ações.
O mercado já mostrou como essa relação pode funcionar. No primeiro trimestre, a expectativa de cortes da Selic, combinada à percepção de que a Bolsa brasileira estava barata, ajudou a sustentar a entrada de capital estrangeiro e a valorização do Ibovespa. Segundo análise da Forbes, investidores estrangeiros chegaram a colocar R$ 53,8 bilhões na Bolsa brasileira no primeiro trimestre.
A dinâmica mudou nos meses seguintes. A inflação mais resistente, a manutenção de juros elevados e as incertezas fiscais reduziram as expectativas de uma queda mais rápida da Selic. Em agosto, os estrangeiros retiraram R$ 7,2 bilhões da Bolsa brasileira, embora o saldo acumulado no ano ainda permanecesse positivo.
A eleição passou a acrescentar outra camada de incerteza. Para os investidores, o ponto de atenção não está apenas no resultado do pleito, mas principalmente nas expectativas sobre a condução da política fiscal e seus efeitos sobre inflação, dívida pública e juros. Analistas ouvidos pela Folha apontam que a proximidade da eleição tem aumentado a volatilidade do real e da Bolsa.
O Goldman Sachs também vem acompanhando o comportamento do câmbio durante os ciclos eleitorais. Em relatório divulgado nesta semana, o banco analisou posições compradas em real e comparou os níveis atuais de carry trade com períodos eleitorais anteriores, incluindo 2006, 2010 e 2022.
Uma eventual redução mais forte dos juros, portanto, dependeria de uma combinação de fatores. A inflação precisa permitir maior flexibilização monetária, enquanto a política fiscal e as expectativas econômicas influenciam o prêmio de risco exigido pelos investidores. A própria ata mais recente do Copom reforçou que os próximos passos continuarão dependentes da evolução dos dados.
Nesse cenário, ações ligadas ao mercado doméstico podem ganhar destaque caso a curva de juros recue de forma consistente. Mas o movimento não depende exclusivamente da Selic. Resultados corporativos, câmbio, fluxo estrangeiro, preços das commodities e condições internacionais também podem alterar a relação entre risco e retorno da Bolsa.
A tese do Goldman, portanto, está ligada à possibilidade de uma mudança de cenário e não a uma garantia de valorização. Para os investidores, a principal variável a acompanhar continua sendo a trajetória dos juros reais e o quanto dela já está incorporado nos preços dos ativos. Quanto maior a queda efetiva dos juros e mais clara a melhora das expectativas econômicas, maior tende a ser a relevância dos setores que hoje carregam o peso de um custo de capital elevado.
Comentários: