Boom dos ETFs alavancados de ações individuais nos EUA começa a perder força
Após uma explosão de novos produtos, o mercado de ETFs que prometem ampliar ganhos e perdas de ações específicas começa a enfrentar fechamento de fundos e dificuldade para atrair investidores
O forte crescimento dos ETFs alavancados e inversos ligados a ações individuais nos Estados Unidos pode estar chegando ao fim. Depois de uma explosão no número de novos produtos, o mercado começa a mostrar sinais de saturação, com dezenas de fundos sendo fechados e muitos deles encontrando dificuldades para atrair dinheiro suficiente dos investidores.
Esses ETFs ganharam popularidade porque permitem que investidores aumentem a exposição aos movimentos de determinadas ações. Um fundo alavancado de 2x, por exemplo, busca entregar aproximadamente o dobro da variação diária da ação que acompanha. Isso significa que, se a ação subir 5% em um dia, o fundo pode buscar um ganho próximo de 10%. O mesmo vale para as perdas.
A estratégia ganhou força com a alta das bolsas e com o interesse cada vez maior por ações muito populares e voláteis. O problema é que o número de produtos cresceu rapidamente, e os analistas começam a questionar se existe dinheiro suficiente para sustentar tantos fundos.
Segundo Daniel Sotiroff, analista da Morningstar, o mercado está ficando saturado. Poucos fundos conseguem concentrar grandes volumes de dinheiro, enquanto uma quantidade cada vez maior de concorrentes disputa os mesmos investidores.
Uma referência utilizada no mercado é que um novo ETF precisa atrair entre US$ 50 milhões e US$ 100 milhões em ativos nos primeiros um ou dois anos para ter melhores condições de cobrir seus custos e continuar operando. Muitos dos novos fundos, porém, estão muito longe desse nível.
Dados da Morningstar Direct mostram que o patrimônio médio dos ETFs alavancados caiu de US$ 272,2 milhões no final de 2024 para US$ 63,3 milhões atualmente. Além disso, metade dos 474 ETFs alavancados acompanhados pela empresa possui menos de US$ 7 milhões em ativos.
Apesar disso, existem alguns gigantes nesse mercado. Um dos principais exemplos é o GraniteShares 2x Long NVDA Daily ETF, que acompanha as ações da Nvidia e possui cerca de US$ 3,9 bilhões em ativos. A diferença entre esses grandes fundos e os menores mostra como o dinheiro está concentrado em poucos produtos.
O crescimento também mudou de perfil. A primeira onda de ETFs alavancados estava concentrada em grandes empresas conhecidas e muito negociadas, como Nvidia, Tesla e Alphabet. Esses papéis já tinham grande participação entre investidores e apresentavam volatilidade suficiente para atrair interessados em produtos alavancados.
A segunda onda, que começou no ano passado, passou a mirar empresas menores e ações mais especulativas. Alguns produtos chegaram a ser criados com exposição a empresas que ainda nem haviam realizado uma oferta pública inicial de ações. Outros ofereciam aos investidores o dobro da exposição diária a determinados temas de inteligência artificial.
Para Elisabeth Kashner, diretora de pesquisa de fundos globais da FactSet, o mercado deixou de se concentrar apenas nas empresas maiores e mais estáveis.
Essa expansão acelerada também começou a provocar uma onda de encerramentos. A Morningstar informou que 63 ETFs alavancados de ações individuais fecharam nos Estados Unidos em 2026, contra apenas três durante todo o ano de 2025.
Entre os produtos encerrados estão ETFs ligados a empresas como MongoDB e Datadog, cujas ações sofreram fortes quedas no início do ano diante dos temores de que o avanço da inteligência artificial pudesse prejudicar seus modelos de negócios.
Um dos casos mais extremos foi o ETF alavancado de 2x ligado à Lucid Group. Em 14 de julho, as ações da fabricante de veículos elétricos despencaram cerca de 51% em um único dia. Para um fundo que busca entregar o dobro do movimento diário da ação, uma queda desse tamanho pode levar o valor do fundo praticamente a zero.
O episódio mostra o principal risco desses produtos: a alavancagem aumenta tanto o potencial de ganho quanto o potencial de perda. Movimentos muito fortes em uma única sessão podem causar perdas enormes aos investidores e até levar ao encerramento do fundo.
Mesmo com esses riscos e com o aumento dos fechamentos, algumas empresas continuam apostando nesse mercado. A Corgi Invest, uma startup do Vale do Silício, lançou 127 novos produtos alavancados ou inversos de ações individuais em 2026 e pretende lançar ainda mais.
A fundadora da empresa, Emily Yuan, afirma que a companhia pretende manter os produtos no mercado e aposta que taxas menores podem ajudá-la a conquistar investidores dos concorrentes. Até agora, os produtos da Corgi acumulam, em média, cerca de US$ 1 milhão em ativos.
O cenário, portanto, está dividido. De um lado, a procura por estratégias de alto risco continua forte entre investidores que querem aumentar a exposição às ações mais voláteis do mercado. Do outro, o número crescente de fundos pequenos, a concentração dos recursos em poucos produtos e o aumento dos encerramentos mostram que o boom dos ETFs alavancados pode estar entrando em uma fase de seleção.
Para os investidores, o crescimento desse mercado também serve como um alerta: produtos que prometem multiplicar os ganhos de uma ação podem fazer exatamente o mesmo com as perdas. E, em um mercado cada vez mais cheio de opções, nem todos os fundos conseguirão atrair dinheiro suficiente para sobreviver.
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