A onda de vendas de títulos se intensifica e coloca mercados globais sob pressão
Alta do petróleo, temor com a inflação e preocupações com o crescimento da dívida pública provocam uma nova escalada nos rendimentos dos títulos e elevam o custo do dinheiro nas maiores economias do mundo
Os mercados globais entraram em uma nova fase de pressão nesta quarta-feira (02), com a continuidade da onda de vendas de títulos públicos na Ásia e na Europa levando os custos de financiamento a níveis que, em alguns casos, não eram vistos havia décadas. Por trás do movimento está uma combinação particularmente delicada para a economia mundial: energia mais cara, inflação persistente e governos cada vez mais endividados.
No Japão, o rendimento dos títulos públicos de 10 anos ultrapassou os 3% pela primeira vez desde 1996. Na Alemanha, os rendimentos permaneceram nos maiores níveis desde 2011, enquanto os títulos britânicos equivalentes atingiram patamares não vistos desde 2008. Como os rendimentos dos títulos sobem quando seus preços caem, o movimento representa uma retirada significativa de investidores desses ativos.
A preocupação vai muito além do mercado financeiro. Os títulos soberanos funcionam como uma espécie de referência para o preço do dinheiro em toda a economia. Quando seus rendimentos aumentam, o custo de financiamento também tende a subir para governos, empresas e consumidores, pressionando desde taxas de hipotecas até investimentos corporativos e gastos públicos.
O aumento dos preços da energia tornou esse cenário ainda mais complexo. A escalada do conflito no Oriente Médio elevou novamente as cotações do petróleo e do gás natural, reforçando o temor de que a inflação volte a ganhar força justamente quando os bancos centrais ainda tentam controlar os preços.
O problema é que juros mais altos já não são apenas uma questão de política monetária. Eles estão se tornando também uma questão fiscal.
Governos das maiores economias do mundo aumentaram significativamente seus níveis de endividamento nos últimos anos, primeiro para enfrentar a pandemia e, depois, para lidar com crises energéticas, defesa e outras pressões econômicas. Agora, com os custos de financiamento subindo, manter essa dívida se torna cada vez mais caro.
É nesse ambiente que volta a ganhar força a figura dos chamados bond vigilantes, ou vigilantes dos títulos. O termo descreve investidores que passam a exigir retornos maiores para financiar governos considerados excessivamente endividados ou fiscalmente irresponsáveis. Na prática, o mercado utiliza o preço do dinheiro como uma forma de impor disciplina aos governos.
O Japão se tornou um dos principais símbolos desse movimento. A alta dos rendimentos colocou sob pressão os planos de investimento agressivos do governo, mostrando como a mudança no mercado de títulos pode rapidamente limitar a capacidade de expansão fiscal de um país.
Nos Estados Unidos, o rendimento dos títulos do Tesouro de 10 anos permaneceu próximo de 4,8%, enquanto os títulos de 30 anos continuam próximos das maiores taxas em quase duas décadas. O Tesouro americano chegou a intervir recentemente no mercado para tentar aliviar a pressão sobre os títulos de longo prazo, mas o efeito foi limitado.
Outro fator começou a disputar espaço nesse cenário: a gigantesca necessidade de capital das empresas de tecnologia. As grandes companhias americanas estão captando volumes cada vez maiores de recursos para financiar investimentos em inteligência artificial. Essa corrida por capital aumenta a competição com os próprios governos pela atenção dos investidores. Quando empresas privadas com enorme capacidade financeira estão dispostas a pagar juros elevados para levantar recursos, a pressão sobre os rendimentos de todo o mercado pode aumentar.
Esse movimento também começa a atingir as bolsas. Rendimentos mais elevados tornam os títulos mais competitivos em relação às ações, especialmente para empresas cujo potencial de lucro está concentrado em um futuro distante. Quanto maior a taxa de juros, menor tende a ser o valor presente desses ganhos futuros.
Por isso, setores ligados à tecnologia e empresas de crescimento podem se tornar particularmente vulneráveis em um ambiente de juros persistentemente elevados. A atenção dos investidores agora se divide entre inflação, petróleo, política monetária e os próximos dados econômicos dos Estados Unidos. O relatório de empregos, o Non-Farm Payrolls, será um dos próximos grandes testes para o mercado, embora a dinâmica da dívida pública esteja ganhando uma importância cada vez maior.
Os mercados passaram anos discutindo quando os bancos centrais começariam a cortar juros. Agora, a pergunta parece ter mudado. Mesmo que os bancos centrais consigam controlar a inflação, quem continuará disposto a financiar governos cada vez mais endividados sem exigir uma remuneração maior? Essa pode ser a questão que definirá os mercados nos próximos anos.
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