Choque no Oriente Médio leva projeções do petróleo à maior revisão da história, diz Reuters
A guerra com o Irã provocou a maior revisão já registrada nas projeções anuais do petróleo em levantamentos da Reuters, após a interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz e a redução da produção no Golfo.
A pesquisa de março, com 38 economistas e analistas, aponta que o Brent deve fechar 2026 com preço médio de US$ 82,85 por barril, um salto de cerca de 30% sobre a estimativa de fevereiro, que era de US$ 63,85 antes do início do conflito.
No caso do WTI, a nova média projetada para 2026 subiu para US$ 76,78 por barril, ante US$ 60,38 na sondagem anterior. O reajuste de US$ 19 no Brent representa a maior alta mensal já vista nas previsões da série histórica da Reuters, iniciada em 2005.
Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, os dois contratos de referência acumulam cerca de 60% de valorização, com o Brent caminhando para um avanço mensal sem precedentes. O principal gatilho segue sendo o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, rota por onde passa aproximadamente 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo. A interrupção forçou produtores do Golfo a reduzir oferta, apertando ainda mais um mercado já sensível.
Analistas alertam que, se o bloqueio persistir por mais algumas semanas, os preços podem acelerar ainda mais.
Segundo Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, o risco de novos saltos permanece elevado caso o estreito não seja reaberto rapidamente. Em cenários mais extremos, algumas casas já trabalham com a possibilidade de o Brent testar ou até superar o recorde histórico de 2008, de US$ 147 por barril.
A Stratas Advisors avalia que, se Ormuz permanecer fechado por mais um mês sem perspectiva clara de solução, o Brent pode se aproximar de US$ 190. Mesmo em um cenário de reabertura parcial entre abril e maio, a expectativa é de que a oferta global siga abaixo dos níveis pré-crise durante boa parte de 2026, já que danos à infraestrutura e gargalos logísticos devem retardar a normalização.
A pesquisa também mostra que a produção da OPEP+ pode encolher em até 11 milhões de barris por dia no segundo trimestre, aprofundando o déficit do mercado no curto prazo. Para tentar conter a disparada, a Agência Internacional de Energia (AIE) já anunciou a liberação recorde de cerca de 400 milhões de barris de estoques estratégicos, embora parte do mercado considere a medida insuficiente diante da escala da interrupção.
Nos Estados Unidos, a produção de shale deve crescer apenas de forma moderada ao longo de 2026, limitada por restrições estruturais e pela menor disponibilidade de poços prontos para rápida ativação. A leitura predominante entre os analistas é que o mercado deve permanecer em déficit no segundo trimestre, antes de migrar para um leve superávit no fim do ano, ainda sob um prêmio de risco elevado.
Do lado da demanda, a expectativa para 2026 segue mais cautelosa: o consumo global pode crescer entre 120 mil e 800 mil barris por dia, pressionado por preços altos, desaceleração econômica e menor apetite da Ásia.